MINHA MENINA FLOR (*)
FOTO: JANA KIRSCHNER
Quem sabe os caminhos do Amor?
Facilmente, emaranhámo-nos nos da paixão;
que tanto podem levar ao amor,
como se evaporarem em decepções…
Meu botãozinho queria amar, mas se apaixonou. Paixão inquieta, lateja, explode. Amor serena, palpita, ilumina, eclode, desabrochando o ser.
Paixão de botãozinho é fogo, termina dando em cravo. Mas aquela menina-botão estava longe de ser boba, logo percebeu que aquela não era a rota do Amor.
Mudou de trajetória, guardando preciosamente seu cravo.
De repente, na virada de uma esquina, novamente a Paixão disfarçada de Amor pulou em sua frente. A menina-botão se encanta, põe-se a sonhar.
Tudo lhe parece tão perfeito! O botão começa a desabrochar. Meio-botão, meio-flor, a menina sente que está no caminho do Amor. Quase todos sentem isso!
- “Olha lá, meu denguinho, não vai te machucar. Já cruzei um caminho semelhante, mas não era o do Amor. Eu bem sabia disso. Era o do encantamento, do deslumbramento de afinidades intelectuais. Dele entrei e saí ilesa, porque não me apaixonei”.
Mas a menina-quase-flor não percebe que entre os caminhos da Paixão e do Amor pode haver a bifurcação do encantado.
Ah! Essa menina-botão-flor é fogo, já pensa que é rosa! E como a danadinha perfuma o ar em sua volta com seu fascínio.
Ela é maravilhosa!
Porém, o senhor-encantamento, como já era de se esperar, se encantou. Cruzou o oceano; depois, voltou desencantado. Ou melhor, desencantando meu botão-flor.
Ela, que já estava mais para flor do que para botão, começou a desconfiar de que nos roseirais do mundo há espinhos. Mas, nem por isso, cessou de perfumar a vida com seu encanto.
Ela é daquelas plantinhas que têm aparência delicada, mas cujos caules não se dobram facilmente…
Cheia de viço, foi traçando novos caminhos, com seu cravo sempre a tira-colo.
Quase ninguém percebeu ao certo quando as pétalas daquela flor-meio-desabrochada se aveludaram e se encorparam. Já não era mais um botãozinho, havia tempos.
E quem regava minha menina? Ela mesma extraía da vida sua água e seu odor. Não lhe faltaram familiares amorosos querendo ajudá-la; no entanto, ela queria extrair sua água, sua terra, seu ar, seu odor.
Mas é muito árduo se auto-regar. Toda flor precisa de seu jardineiro fiel. E eis que surge um jardineiro e, de imediato, planta a flor-quase-desabrochada em seu canteiro.
Mas ela ainda duvida que esteja no caminho do Amor. Outras vezes anunciara aos ventos que o Amor chegara, e ele não chegou.
Precavida, como se tornara, tomou por bem não sair cantando a plenos pulmões que o havia encontrado. Recolhe-se, põe-se em sua redoma. Nem fala muito sobre esse jardineiro, pois poderia estar novamente na bifurcação do encantado.
Em sua volta, as pessoas não entendem muito bem o que está fazendo aquela quase-flor. Nem ela mesma ainda tem certeza.
No entanto, quando se partilha amorosamente o mesmo teto, o mesmo pedaço de pão e de ovo, unidos e esperançosos, como se estivesse degustando caviar, não dá mais para duvidar. Ela sabe que encontrou o caminho do Amor.
E que este Amor é também partilhado com seu cravo. Resta mantê-lo e alimentá-lo.
Então, refaz seu mundo, retraça sua caminhada.
Está diferente?
-Sim. Minha menina desabrochou completamente. Minha menina virou Flor.
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(*) Escrito primeiramente em 03-11-11, em Recife.






