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PRIMEIRO DIA DO LOCKDOWN EM RECIFE Estou vendo pessoas sem máscara, passando na chuva, de bicicleta na beira do canal

PRIMEIRO DIA DO LOCKDOWN 
                                         Foto: Loïc Léon


Estou vendo pessoas sem máscara, passando na chuva, de bicicleta na beira do canal da avenida Jequitinhonha e, como ainda não são 7 horas, talvez seja cedo para eu fazer um julgamento quanto ao respeito ao tal bloqueio total. 

Na minha rua, só vou dizer que esse lockdown é para valer se o verdureiro, cujo tabuleiro  fica no muro do outro  edifício, não estiver sem camisa, descalço e sem máscara. Já olhei várias vezes e ele ainda chegou. Eu acordei às 5:30 e de vez em quando vou espiar se ele já está com sua carroça de verduras e frutas. Mas, até agora não veio; então, talvez tenha lockdown de verdade em Recife. O verdureiro é o meu termômetro, minha balise de análise para saber se o bloqueio total está funcionando mesmo.
   
Virgem Maria! Acabou o lockdown na minha rua. O verdureiro chegou e, apesar de estar calçado e de camisa,  -também pudera, está chovendo-, sua máscara está pendurada na mão. Ele vai dizer que é serviço essencial, pois verdura é comida e que carroça não segue o rodízio de veículos. O pior é que, em volta dele, já se achegaram os costumeiros fregueses e colegas para jogar conversa fora… Vou ficar na minha casa.
Yaracylda Coimet
Recife, 16/05/2020

AMPULHETA CONFINADA. Sinto o tempo calmo, plácido, amorfo, mas pleno. A sociedade se questiona, se divide em diferentes tempos da pandemia .

     AMPULHETA CONFINADA                                               

Antonieta Kirschner
                                              
Foto: Antonieta Kirschner

1", 2", 3", 4", 5", 6", 7".....60"; 1', 2', 3', 4', 5', 6', 7' .... 60'. 12/03/2020; 13, 14… Maio. Lockdown!




Segundos.  Minutos. Horas. Dias. Semanas. Meses. Semestres. Anos. Décadas. Séculos. Milênios. Bilênios...


Sinto o tempo calmo, plácido, amorfo, mas pleno.
A sociedade se questiona, se divide em diferentes tempos da pandemia . 


Os agostinianos creem no tempo  que está em nós e o vivenciam, no antes, no durante e no pós-pandemia.


Os aristotélicos medem o tempo nos astros e o contemplam nos relógios e calendários dos dias confinados.


Enquanto isso…


Meus irmãos, nas enfermarias, padecem no tempo do não atendimento. 


Nas UtIs, experimentam o tempo triste da incerteza da recuperação.


Nos lares, famílias distantes dos doentes lamentam o tempo da ausência e do desespero.


Nos féretros, familiares e amigos se entristecem no tempo do não adeus.


Em Upas, Policlínicas e Hospitais, agentes da saúde vivem o tempo do risco e da luta pelas vidas.


Nos laboratórios, cientistas medem o tempo que falta para  incubações e experimentos.


Nos poderes públicos, os dirigentes se digladiam no tempo dos interesses escusos. 


Nos templos, os religiosos reafirmam o tempo da renovação da esperança e da fé.


Na política, os materialistas reclamam o tempo perdido da economia decadente.


Nas filas da Caixa Econômica, os pobres sofrem o tempo da espera e da fome. 


E o Tempo  passa...
E sempre passará! 
Nós passamos. 
O Espírito voa, imortal.


Só Deus é Eterno, atemporal.
Ele sempre nos abrigará no seu tempo!!!


Yaracylda Coimet
Recife, 20/05/2020