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AMO! E sei que tu me amas. Porque os amigos idos não estão perdidos. Te amando tu serás revivido

AMO!
Amor presente divino


Para os amigos idos, mas não perdidos

Foto: Jayme Vianna Jr.




AMO!
Porque o Amor não se confina!
Porque o coração pulsa mais forte enclausurado
Porque o Amor atravessa as lápides 
Porque tua lembrança não é passado


AMO!
E o Amor não adoece
O Amor contamina de felicidade
O Amor reanima
O Amor cura
O Amor salva!


AMO!
Porque o Amor cintila nas gotas da chuva que cai
Inebria no perfume das flores
Limpa o lodo das calçadas
Lava a dor das despedidas!


AMO!
Mais do que nunca amo!
E o Amor me leva aonde estás


AMO!
Porque o tempo condensa o Amor
Os perigos reavivam o Amor
O silêncio não desespera o Amor
Os riscos aumentam o Amor


AMO!
E o Amor é o escudo da minha saudade
Ele vislumbra o teu rosto no não-ver
Te faz pular das fotografias ao meu encontro
Cicatriza as feridas do ontem


AMO!
Porque o Amor nunca dói
Porque  amando sigo à frente sem ti
Porque amando tua imagem não se apaga


AMO!
E sei que tu me amas
Porque os amigos idos não estão perdidos
Te amando tu serás revivido


AMO!
E amando estarei sempre contigo 
Quando no vazio não estás comigo


AMO!
Porque o Amor não tem passado
O Amor não tem presente
O Amor não tem futuro
O AMOR se conjuga no ETERNO!


AMO!
E só queria te dizer
Que sejas feliz onde estás
Te amo amigo!
Yaracylda Coimet

Recife, 13/07/2020

SERÁ BOTO OU BOATO? Mas pouquíssimas pessoas - dentre as quais eu me incluo – sabem que um boto se transformou em homem e nunca mais se desencantou. Muito pelo contrário, encantado para sempre em médico, ele perpetuou a lenda em nossas memórias afetivas.

SERÁ BOTO OU BOATO?

Para Moacir, meu botinho querido


Quem for fazer uma viagem ao Amazonas, acompanhado de mulher bonita, tem que ter cuidado. Parece que o povo de lá é bem sedutor... Até hoje só conheci de perto aquele amazonense, que era cheio de botices. E, a despeito de seu engajamento profissional e seriedade pelos estudos, era tão dengoso e sedutor que bem mereceu o apelido que lhe demos em Paris: Botinho.

Alguns brasileiros sabem que o boto, animal da fauna amazonense, não é um golfinho. Isso, em parte, graças à lenda do Boto-cor-de-rosa. Mas pouquíssimas pessoas - dentre as quais eu me incluo – sabem que um boto se transformou em homem e nunca mais se desencantou. Muito pelo contrário, encantado para sempre em médico, ele perpetuou a lenda em nossas memórias afetivas. E aquele tucuxi, que conheci em Paris, era bem alto, mas não tinha três metros, como dizem terem os de lá. Já moço, era meio calvo, primeiro sinal de botice. Só não sei como fizeram para esconder seu orifício do topo da cabeça, pois não usava chapéu. Outra botice era seu sorriso sedutor... E havia mais sinais. Uma de suas artimanhas sedutoras era aquela mania de pôr apelidos nas moças, por puro dengo: Meinha, Celinha, Chuchu. Ninguém escapava. E a ousadia? Coisa própria de boto que, na cara dos machões amazonenses, chega às festas e rouba as mulheres deles. De tão ousado, aquele dali se atrevia em ficar falando da lenda dele. “Chuchu, em noite de Lua cheia, ao anoitecer, o Boto aparece”, dizia-me ele. Fui ler a respeito da tal lenda, que conhecia de longe, pelo gosto que tenho pela cultura popular.

De tão linda que a lenda é, decidi fixá-la na memória de nossos jovens. O Boto se transforma em um belo rapaz, alto e forte, elegante, bem vestido em terno branco, charmoso como Ricardo Riccelli no filme Ele o Boto, imperdível! Usa chapéu, para esconder o orifício que possui na cabeça e disfarçar o nariz grande. Anda de maneira peculiar, com os pés virados para os lados de fora, por conta do formato de sua cauda, o que lhe confere o um envolvente gingado. Sai dos rios à procura de diversão e mulheres bonitas. Vai a várias festas, dança e bebe bastante. Altamente sedutor, logo ao chegar num recinto, escolhe uma mulher, uma jovem índia ou moça branca, formosa, trajando vermelho; convida-a para dançar e depois a leva à margem dos rios, para namorar. Mas, assim como Cinderela, que deve abandonar o baile antes da meia-noite, ele tem que voltar para o rio antes do amanhecer, pois senão se transforma em boto novamente na frente da moça ou, quem sabe, vira homem para sempre. Assim, no final da noitada, ele mergulha no rio, deixando a enfeitiçada adormecida na areia da praia. Pouco tempo depois, ela descobre que ficou grávida do rapaz e passa a sonhar acordada com seu namorado encantado, na beira do rio, porém nunca mais tornará a vê-lo.

Na Região Amazônica, sempre que uma moça solteira engravida, logo corre o boato de que se trata de um filho de boto. Mas, cabe fazer um esclarecimento: o filho, em questão, seria de um boto qualquer, desses que saem do rio à noite, não filho de meu Botinho. Como, então, ele entra na história? É que Botinho nos contava que, muitas vezes, por conta da lenda, as mães solteiras, sobretudo as indiazinhas inocentes, afirmavam em seu consultório que estavam grávidas de boto. Algumas delas acreditavam no que diziam; outras, é obvio, aproveitavam-se da lenda para escapar da maledicência da sociedade ou da desaprovação familiar. E lá estava meu Botinho, fazendo sua residência médica, em hospital público do Amazonas, tão puro e cheio de interesse pela ciência, fascinado pelos estudos em Medicina. Logo começou o desfile de mocinhas para as consultas em sua ala. Meninas índias iam e vinham. Lá por umas tantas, chegam mãe e filha. A menina com a barriga à boca. Assustada. A mãe inquisidora pergunta: “E a aí doutor? É bucho ou é doença feia, das que mata?”. Meu Deus, pobre de Botinho! Que poderia responder? A gravidez era tão evidente! Mas a menina jurava que não tinha namorado. “Gravidez mesmo senhora, e já está chegando a hora de parir”. A mãe se apavora, põe as mãos à cabeça. Era a maldição: um filho de boto! Bem que ela dissera à filha para não ir dançar em noite de Lua cheia. Se for um menino, elas estão condenas para o resto da vida; se não tiverem cuidado, o menino se joga no rio e “vira um boto”. Aí ninguém controlará mais a situação, ele “vai fazer igualzinho ao pai”.

O jovem médico fica perplexo. É impossível, isso não pode estar acontecendo com ele. Seu pai é um renomado etnólogo e bem lhe ensinou que história de filho de boto é conto da carochinha. Mas como convencer aquelas duas de que isso era lenda, de que a menina engravidou pelas vias normais, segundo a medicina? Logo ele, tão estudioso, tão fascinado pela ciência, não poderia engolir aquele embuste. Após examinar a menina, em frente da mãe, para evitar equívocos, pede a senhora que se retire. Ele queria ter uma conversa séria com a menina. A mãe sai. Agora, pensa ele, vai tirar toda essa história a limpo. A menina vai confessar quem é o verdadeiro pai do bebê. Qual nada, a indiazinha continua apavorada, com os olhos arregalados, marejados de lágrimas.
Foto: Yaracylda Coimet

-“Minha filha, quatorze aninhos, você ainda é uma criança. Você não tem culpa de nada. Gravidez é coisa da vida. Você só tem que dizer a verdade para sua mãe, contar quem é o verdadeiro pai e a vida continua. O rapaz tem que assumir a paternidade e pronto. Agora, me conte como isso aconteceu.” A mocinha cai no choro. Acertei na mosca, logo pensa ele. Imagina que a menina estava mesmo era com medo de confessar à mãe que estava grávida de um namorado ou, o que poderia ser pior, de um sem vergonha qualquer, mas que vai esclarecer o mistério. A indiazinha cai no pranto novamente:

-“Não precisa ficar com medo. Eu sou médico. Pode me contar tudo o que aconteceu; eu vou explicar a sua mãe e ela vai entender”.-“O senhor é que não entende nada. Não tenho namorado. Foi ele, o Boto”.

    A menina começa de supetão a assumir ‘toda culpa’. Ela saíra sem a permissão da mãe em noite de Lua cheia, para dançar na festa da aldeia. Mas não saiu com namorado nenhum, simplesmente porque ela não tinha namorado. Estava na roda, dançando com as amiguinhas. Deu bobeira, colocou uma saia rodada vermelha. E a coisa que boto mais gosta é de mulher formosa, jovem, vestida de vermelho. Mas ela nem se lembrou disso quando saiu de casa. Estava com tanta vontade de dançar... Por outro lado, havia outras mulheres de vermelho na festa. Já era tarde da noite. Começaram a dançar um carimbó animado, todo mundo fumou e tomou cachaça de jambu, ela também provou. Lá pelas tantas da noite, um homem bonito entrou na roda e dançou com todas as mulheres do baile. Ela foi a última com quem ele dançou. E por isso ficaram mais tempo juntos. Ele se ofereceu, sem falar, porque Boto não fala só seduz, para ir com ela de volta a sua casa. No caminho pararam para ver a Lua, que estava linda. Ela só se lembra disso. Depois se acordou na areia. Foi despertada pelas águas do rio que banharam subitamente seu corpo. Não contou nada para ninguém, pois logo percebeu que tinha sido enfeitiçada por um boto. Quando a barriga começou a crescer, compreendeu que caíra na maldição. Aí sim, teve que confessar à mãe o que acontecera.

    Diante de um relato tão convincente, o que aquele jovem médico poderia fazer? Era sua ciência contra toda uma cultura secular. Calou-se. Prescreveu os exames necessários. Mandou a mãe entrar e disse-lhe para se dirigir a uma maternidade quando fosse chegada a hora. Bem fez o médico em ter engolido a história, pois o desfile de filhos de botos só estava começando em sua vida. Cada vez mais apareciam pretensas grávidas do encantado. Umas, bem sabidinhas, usufruíam da lenda como cobertura para suas andanças malsucedidas em bailes. Essas, o médico rapidamente começou a identificar e levava também na ironia. Afinal de contas, filho de boto ou não, para a medicina pouco importava, elas seriam tratadas como qualquer mulher grávida, com muito respeito e cuidados. No entanto, aquelas que acreditavam piamente que haviam sido engravidadas por um boto eram, sem dúvida, vitimas de homens oportunistas, que se disfarçavam em botos. Essas inocentes ficavam tão apaixonadas por eles que é difícil afirmar que não foram enfeitiçadas. Coitados dos meninos que nasciam desse fascínio. Eles eram apontados como um verdadeiro perigo: filho de boto, botinho é.

    A vida é um faz-de-conta, o Boto se passa por homem, homens se passam por botos. Certo cordelista piauiense recitava em seus versos que “o mito é a mentira que virou verdade, e uma verdade pode ser um mito. Por isso meninas, se um belo amazonense as chamar para ir a uma praia de rio em noite de Lua cheia, por via das dúvidas não vão não! Diz a sabedoria popular que “Todo boato tem um fundo de verdade”. Pode ser homem encantador, mas na verdade um boto enfeitiçado. Mas, por outro lado, em prol da pesquisa e da santa mãe curiosidade, e se vocês assim o quiserem, talvez seja válido aceitar o convite e testar a lenda. Quem sabe o Boto enfeitiçado não vira verdade para sempre?

Yaracylda Coimet
Recife