SERÁ BOTO OU BOATO?
Para Moacir, meu botinho querido
Quem for fazer uma viagem
ao Amazonas, acompanhado de mulher bonita, tem que ter cuidado. Parece que o
povo de lá é bem sedutor... Até hoje só conheci de perto aquele amazonense, que
era cheio de botices. E, a despeito
de seu engajamento profissional e seriedade pelos estudos, era tão dengoso e
sedutor que bem mereceu o apelido que lhe demos em Paris: Botinho.
Alguns brasileiros sabem
que o boto, animal da fauna amazonense, não é um golfinho. Isso, em parte,
graças à lenda do Boto-cor-de-rosa. Mas pouquíssimas pessoas - dentre as quais
eu me incluo – sabem que um boto se transformou em homem e nunca mais se
desencantou. Muito pelo contrário, encantado para sempre em médico, ele
perpetuou a lenda em nossas memórias afetivas. E aquele tucuxi, que conheci em Paris, era bem alto, mas não tinha três
metros, como dizem terem os de lá. Já moço, era meio calvo, primeiro sinal de
botice. Só não sei como fizeram para esconder seu orifício do topo da cabeça,
pois não usava chapéu. Outra botice era seu sorriso sedutor... E havia mais
sinais. Uma de suas artimanhas sedutoras era aquela mania de pôr apelidos nas
moças, por puro dengo: Meinha, Celinha, Chuchu. Ninguém escapava. E a ousadia? Coisa
própria de boto que, na cara dos machões amazonenses, chega às festas e rouba
as mulheres deles. De tão ousado, aquele dali se atrevia em ficar falando da
lenda dele. “Chuchu, em noite de Lua cheia, ao anoitecer, o Boto aparece”,
dizia-me ele. Fui ler a respeito da tal lenda, que conhecia de longe, pelo
gosto que tenho pela cultura popular.
De tão linda que a lenda é,
decidi fixá-la na memória de nossos jovens. O Boto se transforma em um belo
rapaz, alto e forte, elegante, bem vestido em terno branco, charmoso como
Ricardo Riccelli no filme Ele o Boto, imperdível!
Usa chapéu, para esconder o orifício que possui na cabeça e disfarçar o nariz
grande. Anda de maneira peculiar, com os pés virados para os lados de fora, por
conta do formato de sua cauda, o que lhe confere o um envolvente gingado. Sai
dos rios à procura de diversão e mulheres bonitas. Vai a várias festas, dança e
bebe bastante. Altamente sedutor, logo ao chegar num recinto, escolhe uma
mulher, uma jovem índia ou moça branca, formosa, trajando vermelho; convida-a
para dançar e depois a leva à margem dos rios, para namorar. Mas, assim como
Cinderela, que deve abandonar o baile antes da meia-noite, ele tem que voltar
para o rio antes do amanhecer, pois senão se transforma em boto novamente na
frente da moça ou, quem sabe, vira homem para sempre. Assim, no final da
noitada, ele mergulha no rio, deixando a enfeitiçada adormecida na areia da
praia. Pouco tempo depois, ela descobre que ficou grávida do rapaz e passa a
sonhar acordada com seu namorado encantado, na beira do rio, porém nunca mais
tornará a vê-lo.
Na Região Amazônica,
sempre que uma moça solteira engravida, logo corre o boato de que se trata de
um filho de boto. Mas, cabe fazer um esclarecimento: o filho, em questão, seria
de um boto qualquer, desses que saem do rio à noite, não filho de meu Botinho. Como,
então, ele entra na história? É que Botinho nos contava que, muitas vezes, por
conta da lenda, as mães solteiras, sobretudo as indiazinhas inocentes, afirmavam
em seu consultório que estavam grávidas de boto. Algumas delas acreditavam no
que diziam; outras, é obvio, aproveitavam-se da lenda para escapar da
maledicência da sociedade ou da desaprovação familiar. E lá estava meu Botinho,
fazendo sua residência médica, em hospital público do Amazonas, tão puro e cheio
de interesse pela ciência, fascinado pelos estudos em Medicina. Logo começou o
desfile de mocinhas para as consultas em sua ala. Meninas índias iam e vinham.
Lá por umas tantas, chegam mãe e filha. A menina com a barriga à boca.
Assustada. A mãe inquisidora pergunta: “E a aí doutor? É bucho ou é doença
feia, das que mata?”. Meu Deus, pobre de Botinho! Que poderia responder? A
gravidez era tão evidente! Mas a menina jurava que não tinha namorado.
“Gravidez mesmo senhora, e já está chegando a hora de parir”. A mãe se apavora,
põe as mãos à cabeça. Era a maldição: um filho de boto! Bem que ela dissera à
filha para não ir dançar em noite de Lua cheia. Se for um menino, elas estão
condenas para o resto da vida; se não tiverem cuidado, o menino se joga no rio
e “vira um boto”. Aí ninguém controlará mais a situação, ele “vai fazer
igualzinho ao pai”.
O jovem médico fica
perplexo. É impossível, isso não pode estar acontecendo com ele. Seu pai é um
renomado etnólogo e bem lhe ensinou que história de filho de boto é conto da
carochinha. Mas como convencer aquelas duas de que isso era lenda, de que a
menina engravidou pelas vias normais, segundo a medicina? Logo ele, tão
estudioso, tão fascinado pela ciência, não poderia engolir aquele embuste. Após
examinar a menina, em frente da mãe, para evitar equívocos, pede a senhora que
se retire. Ele queria ter uma conversa séria com a menina. A mãe sai. Agora,
pensa ele, vai tirar toda essa história a limpo. A menina vai confessar quem é
o verdadeiro pai do bebê. Qual nada, a indiazinha continua apavorada, com os
olhos arregalados, marejados de lágrimas.
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| Foto: Yaracylda Coimet |
-“Minha filha, quatorze
aninhos, você ainda é uma criança. Você não tem culpa de nada. Gravidez é coisa
da vida. Você só tem que dizer a verdade para sua mãe, contar quem é o
verdadeiro pai e a vida continua. O rapaz tem que assumir a paternidade e
pronto. Agora, me conte como isso aconteceu.” A mocinha cai no choro. Acertei
na mosca, logo pensa ele. Imagina que a menina estava mesmo era com medo de
confessar à mãe que estava grávida de um namorado ou, o que poderia ser pior, de
um sem vergonha qualquer, mas que vai esclarecer o mistério. A indiazinha cai
no pranto novamente:
-“Não precisa ficar com
medo. Eu sou médico. Pode me contar tudo o que aconteceu; eu vou explicar a sua
mãe e ela vai entender”.-“O senhor é que não
entende nada. Não tenho namorado. Foi ele, o Boto”.
A menina começa de
supetão a assumir ‘toda culpa’. Ela saíra sem a permissão da mãe em noite de
Lua cheia, para dançar na festa da aldeia. Mas não saiu com namorado nenhum,
simplesmente porque ela não tinha namorado. Estava na roda, dançando com as
amiguinhas. Deu bobeira, colocou uma saia rodada vermelha. E a coisa que boto
mais gosta é de mulher formosa, jovem, vestida de vermelho. Mas ela nem se
lembrou disso quando saiu de casa. Estava com tanta vontade de dançar... Por
outro lado, havia outras mulheres de vermelho na festa. Já era tarde da noite.
Começaram a dançar um carimbó animado, todo mundo fumou e tomou cachaça de
jambu, ela também provou. Lá pelas tantas da noite, um homem bonito entrou na
roda e dançou com todas as mulheres do baile. Ela foi a última com quem ele
dançou. E por isso ficaram mais tempo juntos. Ele se ofereceu, sem falar,
porque Boto não fala só seduz, para ir com ela de volta a sua casa. No caminho
pararam para ver a Lua, que estava linda. Ela só se lembra disso. Depois se
acordou na areia. Foi despertada pelas águas do rio que banharam subitamente
seu corpo. Não contou nada para ninguém, pois logo percebeu que tinha sido
enfeitiçada por um boto. Quando a barriga começou a crescer, compreendeu que
caíra na maldição. Aí sim, teve que confessar à mãe o que acontecera.
Diante de um relato tão
convincente, o que aquele jovem médico poderia fazer? Era sua ciência contra
toda uma cultura secular. Calou-se. Prescreveu os exames necessários. Mandou a
mãe entrar e disse-lhe para se dirigir a uma maternidade quando fosse chegada a
hora. Bem fez o médico em ter engolido a história, pois o desfile de filhos de
botos só estava começando em sua vida. Cada vez mais apareciam pretensas
grávidas do encantado. Umas, bem sabidinhas, usufruíam da lenda como cobertura
para suas andanças malsucedidas em bailes. Essas, o médico rapidamente começou
a identificar e levava também na ironia. Afinal de contas, filho de boto ou
não, para a medicina pouco importava, elas seriam tratadas como qualquer mulher
grávida, com muito respeito e cuidados. No entanto, aquelas que acreditavam
piamente que haviam sido engravidadas por um boto eram, sem dúvida, vitimas de
homens oportunistas, que se disfarçavam em botos. Essas inocentes ficavam tão
apaixonadas por eles que é difícil afirmar que não foram enfeitiçadas. Coitados
dos meninos que nasciam desse fascínio. Eles eram apontados como um verdadeiro
perigo: filho de boto, botinho é.
A vida é um faz-de-conta,
o Boto se passa por homem, homens se passam por botos. Certo cordelista
piauiense recitava em seus versos que “o mito é a mentira que virou verdade, e
uma verdade pode ser um mito”. Por
isso meninas, se um belo amazonense as chamar para ir a uma praia de rio em
noite de Lua cheia, por via das dúvidas não vão não! Diz a sabedoria popular
que “Todo boato tem um fundo de verdade”.
Pode ser homem encantador, mas na verdade um boto enfeitiçado. Mas, por outro
lado, em prol da pesquisa e da santa mãe
curiosidade, e se vocês assim o quiserem, talvez seja válido aceitar o
convite e testar a lenda. Quem sabe o Boto enfeitiçado não vira verdade para
sempre?
Yaracylda Coimet
Recife