NUNCA SÓS
Amor e boas recordações, patrimônios indeléveis
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| Foto: Yaracylda Coimet |
Para todos que amo e para todos que ainda não amei
Fomos crianças de bairros populares. Tínhamos irmãos e irmãs para brigar e brincar. Estudamos em Grupo Escolar, Educandários, colégio de religiosas, a maioria no ensino público. Nossos pais eram funcionários, comerciários, - em suma, trabalhadores-, mas tinham horários para estarem conosco. Não eram famosos, mas nos amavam, nos davam atenção, “pão, amor e palmada”, carinho, limites e ensinamentos necessários. Quando aprontávamos, bastava um rabo-de-olho do pai e saíamos de fininho.
Nossas mães não viviam em academias, nem em salões de estética, mas eram belas, eram nossas fadas madrinhas e preparavam nossas comidas gostosas, sem nunca terem frequentado nenhum curso de gastronomia, nem participado de nenhum masterchef. Nenhuma iguaria de restaurantes chiques jamais poderão igualar os quitutes de nossas mães, madrinhas, tias, vizinhas amigas e comadres.
Éramos felizes. Brincávamos de roda, de pega-pega, amarelinha, passa anel, anjo bom - anjo mau, barra bandeiras, queimado, pedrinhas, bola de gude, papagaio, cozidos e batizados de bonecas. Trocávamos decalcomanias (isso só os de mais de 50 conheceram). Os meninos ganhavam as campinas para a pelada, os banhos de riacho ou nas poças-d’água deixadas pelas chuvas. Usávamos capas, galochas, guarda-chuvas. Comprávamos e trocávamos gibis. Os mais ousados, geralmente os meninos, já naquele tempo, conseguiam alguma revistinha pornô.
Tínhamos cadernos encapados com papel madeira. Usávamos fardas. Para meninos, bermudas ou calças compridas; para as meninas, saia plissada até os joelhos. E ai daquelas que dobrassem o cós para encurtar o comprimento. Iam direto para a diretoria. Na escola, recitávamos poesias e textos, participávamos de jograis e gincanas; vendíamos rifas para a Rainha do milho… Decorávamos a tabuada para as sabatinas. Copiar dever ou prova do colega era “filar”, e quem fosse pego, levava bronca séria.
Alguns de nós levaram boas palmadas da mãe ou ficou muito de castigo, e nem por isso ficaram traumatizados. Palmada de mãe nunca matou ninguém, porque elas também conversavam (é o dialogar de hoje) com a gente e nos davam muitos conselhos bons e muito amor.
Mandávamos e recebíamos bilhetinhos amorosos. Paquerávamos nas Festas de largo, no cinema, nos assustados… Nos ensaios das quadrilhas, nas festinhas de aniversário. Ô! tempo bom.
Natal de verdade tinha que ter passeio no centro da cidade e ir à Viana Leal, para ver a decoração natalina e sonhar com os possíveis presentes lindos e caros que, muitas vezes não eram para os nossos bicos. Mas ficávamos radiantes quando depois da meia noite da véspera, do 24 de dezembro, abríamos nossos presentes, mesmos se não fossem os que pedíramos ao Papai Noel. Ninguém exigia dos pais um Iphone, Ipod ou qualquer coisa do gênero. Ganhar uma bicicleta para si só, sem ter que compartilhar com irmãos e primos, já era motivo de grande júbilo. Boneca articulada e que dizia papai e mamãe era o sonho de toda menina, e as que trocavam passadas, então, eram o máximo dos desejos! Coroando a atmosfera onírica natalina, chegavam as Festas de Reis. “Boa noite meus senhores todos. Boa noite senhoras também… Meu São-José dai-me licença para o pastoril dançar. Somos pastoras, pastorinhas belas...”. De saia curta, diademas floridos à cabeça e pandeirinhos na mão. Qual o rapaz que iria perder este espetáculo? Nem pensar em deixar de comprar os bilhetinhos (votos) para eleger o cordão onde aquela mocinha, que fazia bater forte seu coração, estava dançando. “Viva o cordão azul, viva o cordão encarnado!”. Eu era a diana, não tinha partido, mas tinha o vestido dividido em dois hemisférios e isso me contrariava. Vestido de duas bandas… O Pastoril tradicional ainda faz bater forte meu coração, tão singela manifestação religiosa e folclórica.
São-João, minha festa predileta! Era festa de crianças, jovens e adultos. Não comprávamos comidas juninas prontas e por isso não corríamos o risco de termos indisposições gastrointestinais no dia seguinte. Participávamos da elaboração dos pratos, descascando e debulhando a mão de milho, mexendo a canjica, haja braço! Por isso, embora xingando contra toda a trabalheira das preparações, tudo tinha um sabor inigualável, que permanece nas nossas papilas gustativas da saudade.
Fogueiras, quadrilhas ensaiadas nas escolas, nas ruas, nos quintais. Estrelinha, traque de massa, diabinho, cobrinha, peido-de-velha, lágrima, buscapé e rojão. A despeito do perigo de alguns fogos, esse momento de belo visual e excitação era um dos mais esperados. Caprichávamos nos trajes típicos. As matutinhas de tranças e vestidos de chita rodados; os matutinhos de calça com remendos, camisa quadriculada e chapéu de palha. Pintinhas no rosto das meninas e falso bigode no dos rapazes não podiam faltar no visual. E ninguém achava que isso era pagar mico.
Hoje, fala-se dos epicentros da pandemia, naquela época falava-se de fogueiras, epicentros das festividades, com tudo de bom e de inconveniente que elas podiam ter. Tudo girava em torno delas: assar milho, fazer adivinhações, ser batizado por sua madrinha e seu padrinho de fogueira, pular as brasas fazendo um pedido, tocar sanfona e dançar o arrasta-pé pertinho delas, para se aquecer nas noites sempre friazinhas de São-João. “Noite fria, tão fria de junho, os balões lá no céu vão subindo (…)”. Ouvindo seu Luís, porque sem ele o forró não tem sabor. Para completar o musical, vinham o Trio Nordestino e Marinês e Sua Gente. Os famosos ternos de zabumba, com triângulo, sanfona e zabumba, também não podiam faltar. No Agreste e no Sertão, bacamarteiros e bandinhas de pífanos eram os donos do espetáculo.
Carnaval chegava trazendo muita alegria. Mas não tinha o aconchego do São-João, festa nordestina por excelência. No período carnavalesco, toda criança usava óculos, mas eram coloridos e de plástico, pois lança-perfume doía nos olhos. Serpentinas, confetes, mela-mela, banhos, corsos, marchinhas, maracatus, caboclinhos, bumba-meu-boi, papangus, ursos e la ursa pedindo dinheiro para dançar. E as crianças suplicando para os adultos que lhes dessem dinheiro para a la ursa, pois não queriam ser pirangueiros.
Gritos de carnaval improvisados nas casas ou os bailes dos clubes. Quem era sócio de um clube podia levar seus convidados, assim, amigos e familiares também podiam usufruir dos bailes. Lembranças felizes de nossos carnavais de rua, de bairro e de clubes.
Tempos idos, mas não perdidos, gravados em letras brilhantes em nossas memórias. Diamantes em nossos corações saudosos. Pois, esses foram tempos de muito Amor e partilha.
Se você se encontrou em algum desses momentos, é porque, certamente, já passou dos quarenta; e porque foi criança e jovem feliz e uma pessoa abençoada por Deus, por ter tido uma família, casa, comida, divertimento, educação e amigos. E o melhor da história: sua memória está preservada. Xô alzheimer!
Tivemos o privilégio de ter vivido numa época em que não havia Internet nem redes sociais, mas nem por isso vivíamos isolados; ao contrário, fazíamos quase tudo em companhia de colegas, amigos e familiares. Criamos raízes profundas no Amor e na Amizade dos tempos felizes, eles sedimentaram nossas lembranças calorosas às quais nos agarramos como náufragos quando as tempestades da vida querem nos arrastar. Porque é o Amor e a Amizade que nos dá forças no distanciamento social que vivemos. Porque só se sente confinado quem nunca amou ou nunca foi amado, como não acredito que isto seja possível, todos estamos imunizados contra a solidão. Nosso maestro Nelson Ferreira soube expressar muito bem esse sentimento. Vamos seguir cantando, pois quem canta seus males espanta: “Quem tem saudade nunca está sozinho/ tem o carinho da recordação/ por isso quando estou mais isolado/ estou bem acompanhado com você no coração”. Essa recordação musical foi inspirada no meu querido irmão, que está no Rio de Janeiro, longe e perto de mim.
Quem ama sempre está junto! Nem o tempo, nem a distância nos separam de nossos amores. E Deus sempre vela por nós. Por isso, nunca estamos sós!
Yaracylda Coimet
Recife 26/06/2020






