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MERGULHO VIRTUAL.Do afastamento social ao mergulho intenso no aconchego virtual, só havia um pulo a ser dado. Mergulhamos de cabeça!

MERGULHO VIRTUAL

Salvemos  o tempo de escrever e de  falar



A amiga Heloísa Arcoverde, 
admirável professora e literata




Do afastamento social  ao mergulho intenso no aconchego virtual, só havia um pulo a ser dado. Mergulhamos de cabeça!
Quase sempre os poetas têm razão, pois farejam a alma humana, fugindo do mundo dos comuns dos mortais ou transfigurando seu entorno. E Billy Blanco cantou seu Canto Chorado:  “O que dá pra rir, dá pra chorar. Questão só de peso e medida. Problema de hora e lugar. Mas tudo são coisas da vida”. Seus versos soam como valiosas lições na Pandemia. Parece que foi ontem, que tantas vezes brincamos do fazer-de-conta-que-não-dá-para-ver-você, porque não tínhamos, ou não queríamos ter,  tempo. Rapidamente nossos pretextos voavam pelas redes sociais para aterrissar no celular dos parentes e amigos. Porém, a brincadeira virou hora e lugar da verdade: não dá para nos encontrarmos, muito menos nos tocarmos.
Sem abraços e sem beijinhos, consumimos mais do que nunca emojis, memes (qualquer coisa vira meme!), gifs e outros frutos do virtual, porque nossos amigos “precisam” saber que estamos isolados, mas felizes; que pensamos neles, assim como queremos e necessitamos que eles pensem em nós. Por que dizer/escrever isso para nossos afetos? Estamos, agora, acobertados pelo distanciamento social, podemos usar e abusar dos recadinhos virtuais e lançar rapidamente uma frase na telinha, pondo lado a lado uma carinha que verte uma lágrima e outra que sorri até os dentes… Pronto, missão cumprida: “falei com meu amigo”!

São tantas carinhas! Quem sabe o que todas elas querem dizer… ? 

-Ei, bonitinha de olhinhos amendoados e boquinha em meia-lua sem lábios, o que és tu?
-E tu, de boca revirada? Estás zangada, decepcionada, comeu e não gostou?
-Decifra-me ou devoro-te!

Não, não lutamos mais contra os moinhos. Há muito capitulamos. Adotamos todas 
elas. Nem sempre sabemos quem são, mas e daí?
Enfeitiçados. Usamos máscaras do teatro da vida, símbolos da atualidade comunicacional.

Papel, lápis ou caneta. Na falta deles, um teclado cheiinho de letras, números, acentos, sinais e comandos mágicos; e uma telinha ou uma tela maiorzinha. Não é exigir muito! Nenhum emoji, nem nenhum meme vai falar os nossos sentimentos mais profundos, mas expressam rapidamente o “urgente” e o “emergencial”. O superficial?  Coisas da evolução dos tempos. Será? 

-Até que ponto subsistirá o esgotamento da imagem em detrimento da escrita e da fala? 
Estamos sendo roubados da nossa faculdade comunicacional diferencial, a língua, a fala. Mas, nem nos damos conta disso. E queremos nos dar conta disso? Eis a questão! Porque o mundo tem pressa, mesmo confinado o mundo tem pressa. Escrever custa! Escrever cansa! Escrever dói???!!!

Tão apressados? Mandemos áudios. A voz amiga é uma carícia sonora. Ela transmite rapidinho o que queremos dizer e, de brinde, ainda veicula a emoção da nossa voz. Mas cuidado, não mandemos áudios quando estamos zangados, vão doer no coração do outro. Depois vai dar trabalho para “arrumar a casa”.

Escrever pode escancarar nossos males. Então: Eu me preservo/ Tu te preservas/ Ele, ela se preserva. Eu emojio/ Tu emojias/ Ele, ela emojia. Eu me invado? Tu te invades? Ele, ela se invade?. Mas amemos de peito aberto, ARRISQUEMOS NOSSO TEMPO. Empenhemos nossos olhos, nossas mãos, nosso coração. Essa é mais do que nunca a hora de viver com pureza, clareza e sinceridade os sentimentos, são eles que nos sustentam e nos dão e darão forças para enfrentar o que ainda virá. AMEMOS!

-Cadê você Saussure, que não nos responde?

E, como saindo de seu túmulo, o mestre suíço,  sussurra às nossas orelhas: “Ah! a linguagem verbal, articulada, único código capaz de se autodescrever e se explicar, como também pode fazer com os outros códigos, inclusive com os frutos da linguagem virtual, meus filhinhos.  Bendita seja a linguagem verbal. Oh! metalinguagem! ESCREVAM E FALEM, FILHOS AMADOS”.  

Uma carinha ali, uma carinha aqui, tudo bem. Não sejamos extremistas! De vez em quando, um coração vermelho pulsando, até que faz muito bem, sobretudo, se for nas mensagens matinais, quando muitos ainda estão com o nariz na xícara de café! Dormindo por dentro, como diziam nossas mães. Mas, por Deus, escrevam, falem! Os dedos até podem ser economizados, basta ditar o que queremos escrever  ou dizer, falando com aqueles bichinhos retangulares em cristal líquido. Os corretores automáticos vão trabalhar ou atrapalhar, corrigindo ou talvez modificando um pouco nossos escritos. Não faz mal, porque o mais importante é que nas suas telas, nossos amigos e parentes vão saber que o  nosso tempo foi dedicado a eles. E se não entenderem, nos perguntarão. É mais uma chance de comunicação.

Abençoadas sejam as línguas naturais, e que não se percam os frutos do seu ventre, língua e fala. Amém! 
Yaracylda Coimet
Recife, 10/07/2020