GENTE GROSSA e GENTE FINA
Para meu Leleco,
que riu muito com essa história
que riu muito com essa história
Do outro lado da rua, ele faz um rápido aceno ao companheiro que está bebericando com outros homens, em frente de sua banca de sapateiro, lá em Zefinha. Leio no letreiro improvisado, escrito à mão: barraca da Zefinha.
Atravessa a pista, na frente do meu carro, que está parado. Na barraca, afasta o colega com o cotovelo direito e, com a mão esquerda, dá uma botada na garrafinha de água mineral, que a barraqueira lhe passa por entre as grades da janela. Até barraquinhas são gradeadas. Uma questão de segurança? Paranoia? Vai saber! Afasta-se um pouco, para não molhar os companheiros, passa água mineral nas mãos. Com o restante do conteúdo lava o rosto.
-“Uma Pitú, Zefinha!” Vai gritando bem alto, para que a vendedora, que já se afastou, possa ouvir de onde estiver.
Um bom gargarejo com o primeiro gole, para limpar a garganta. E depois toma uma lapada de uma só vez. Em seguida, agarra uns palitos, prevendo a futura limpeza dos dentes. Dá para perceber que se trata de um rapaz que prima por sua higiene bucal. Meticuloso, assua o nariz num guardanapo, no primeiro que encontra. E chega a vez de limpar os pulmões. Num escarro fenomenal, o catarro amarelo esverdeado é lançado aos pés do sombreiro, colando-se às raízes expostas da árvore. Bom, depois de tanto esmero, o moço bem merece um almoço de rei.
O sinal abre, pela segunda vez, mas os carros nem avançam. Que engarrafamento danado! O motorista de trás, dá uma buzinada das que desentopem qualquer ouvido resfriado. Mostro-lhe amistosamente o polegar e aponto para o sinal. Não tenho culpa se ninguém pode avançar. Mas, ainda bem que não posso ir rápido. Bendito engarrafamento que sacia minha curiosidade! Não dá para escrever ao volante, mas já imagino essa cena no papel.
Novamente sinal verde. Avanço um metro. Agora, tenho que torcer o pescoço para ver o que está acontecendo no banquete da barraca. Que pena! Não posso ouvir as conversas. A julgar pelo eco das gargalhadas, devem ser muito interessantes. Tapinhas nos ombros uns dos outros, cotoveladas. Muitas gargalhadas.
Fico a imaginar o que aqueles homens podem estar contando na frente do menino, que deve ser o filho da barraqueira. Posso ver a montanha de comida no prato do moço meticuloso, aquele que “cuida tanto da higiene”, e que agora parece esfaquear um bifão. O brilho do sol incide na faca de cozinha, que vai e vem. Segue devorando o feijão com arroz. Rega tudo com a branquinha, que é para fazer a digestão e não ficar com mau hálito. Seu companheiro da esquerda dá tapinhas na pança. Bom sinal. Quer dizer que comeu bem e que está muito satisfeito com seu festim. Grande satisfação. Foram várias tapinhas na barriga.
Mas que falta de sorte! O sinal abre de novo. Desta vez, não vai dar para remanchar. O moço do carrão, desses que só gente fina tem, já está me encarando com seus faróis altos. Devoro-te! Já deu para entender, colega. Estou fora! Vou avançar.
Certas horas, os engarrafamentos deveriam ser piores. O carro da frente já se distancia de mim. Infelizmente, tenho que engatar uma segunda e me afastar ainda mais.
O moço fino atrás de mim, acompanhado de uma dama loiríssima, está muito impaciente. Abaixa o vidro, solta um monte de palavras bonitas. Já tentou duas vezes subir na estreita calçada. Mas, seu lindo pick-up importado, novíssimo, cabine dupla, não cabe entre os postes e os muros das casas. As motos, sim. Estas fazem a festa! Mas tudo isso não tem importância. O que me deixa insatisfeita é que não dá para ver o que vai acontecer quando aquela morena rechonchuda, de mini blusa e calça legue, que está atravessando a rua, passar defronte da barraca de dona Zefinha. Será que ela também vai almoçar lá?
A última imagem que vejo do moço da barraca, pelo retrovisor, é de pura ternura com o vira-lata que está deitado próximo a seus pés. Abaixa-se, acaricia o bicho moribundo. Oferece-lhe comida na boquinha. Fico aqui pensando, será que o moço fino do pick-up teria, algum dia na sua vida, feito algo semelhante?
Yaracylda Coimet
Recife, 23/10/14






