GENTE GROSSA e GENTE FINA. O moço fino atrás de mim, acompanhado de uma dama loiríssima...Fico aqui pensando, será que o moço fino do pick-up teria, algum dia na sua vida, feito algo semelhante?.

GENTE GROSSA e GENTE FINA



Para meu Leleco, 
que riu muito com essa história






Do outro lado da rua, ele faz um rápido aceno ao companheiro que está bebericando com outros homens, em frente de sua banca de sapateiro, lá em Zefinha. Leio no letreiro improvisado, escrito à mão: barraca da Zefinha. 


Atravessa a pista, na frente do meu carro, que está parado. Na barraca, afasta o colega com o cotovelo direito e, com a mão esquerda, dá uma botada na garrafinha de água mineral, que a barraqueira lhe passa por entre as grades da janela. Até barraquinhas são gradeadas. Uma questão de segurança? Paranoia? Vai saber! Afasta-se um pouco, para não molhar os companheiros, passa água mineral nas mãos. Com o restante do conteúdo lava o rosto.


-“Uma Pitú, Zefinha!” Vai gritando bem alto, para que a vendedora, que já se afastou, possa ouvir de onde estiver.


Um bom gargarejo com o primeiro gole, para limpar a garganta. E depois toma uma lapada de uma só vez. Em seguida, agarra uns palitos, prevendo a futura limpeza dos dentes. Dá para perceber que se trata de um rapaz que prima por sua higiene bucal. Meticuloso, assua o nariz num guardanapo, no primeiro que encontra. E chega a vez de limpar os pulmões. Num escarro fenomenal, o catarro amarelo esverdeado é lançado aos pés do sombreiro, colando-se às raízes expostas da árvore. Bom, depois de tanto esmero, o moço bem merece um almoço de rei. 


O sinal abre, pela segunda vez, mas os carros nem avançam. Que engarrafamento danado! O motorista de trás, dá uma buzinada das que desentopem qualquer ouvido resfriado. Mostro-lhe amistosamente o polegar e aponto para o sinal. Não tenho culpa se ninguém pode avançar. Mas, ainda bem que não posso ir rápido. Bendito engarrafamento que sacia minha curiosidade! Não dá para escrever ao volante, mas já imagino essa cena no papel. 


Novamente sinal verde. Avanço um metro. Agora, tenho que torcer o pescoço para ver o que está acontecendo no banquete da barraca. Que pena! Não posso ouvir as conversas. A julgar pelo eco das gargalhadas, devem ser muito interessantes. Tapinhas nos ombros uns dos outros, cotoveladas. Muitas gargalhadas. 


Fico a imaginar o que aqueles homens podem estar contando na frente do menino, que deve ser o filho da barraqueira. Posso ver a montanha de comida no prato do moço meticuloso, aquele que “cuida tanto da higiene”, e que agora parece esfaquear um bifão. O brilho do sol incide na faca de cozinha, que vai e vem. Segue devorando o feijão com arroz. Rega tudo com a branquinha, que é para fazer a digestão e não ficar com mau hálito. Seu companheiro da esquerda dá tapinhas na pança. Bom sinal. Quer dizer que comeu bem e que está muito satisfeito com seu festim. Grande satisfação. Foram várias tapinhas na barriga. 


Mas que falta de sorte! O sinal abre de novo. Desta vez, não vai dar para remanchar. O moço do carrão, desses que só gente fina tem, já está me encarando com seus faróis altos. Devoro-te! Já deu para entender, colega. Estou fora! Vou avançar.


Certas horas, os engarrafamentos deveriam ser piores. O carro da frente já se distancia de mim. Infelizmente, tenho que engatar uma segunda e me afastar ainda mais. 


O moço fino atrás de mim, acompanhado de uma dama loiríssima, está muito impaciente. Abaixa o vidro, solta um monte de palavras bonitas. Já tentou duas vezes subir na estreita calçada. Mas, seu lindo pick-up importado, novíssimo, cabine dupla, não cabe entre os postes e os muros das casas. As motos, sim. Estas fazem a festa! Mas tudo isso não tem importância. O que me deixa insatisfeita é que não dá para ver o que vai acontecer quando aquela morena rechonchuda, de mini blusa e calça legue, que está atravessando a rua, passar defronte da barraca de dona Zefinha. Será que ela também vai almoçar lá? 


A última imagem que vejo do moço da barraca, pelo retrovisor, é de pura ternura com o vira-lata que está deitado próximo a seus pés. Abaixa-se, acaricia o bicho moribundo. Oferece-lhe comida na boquinha. Fico aqui pensando, será que o moço fino do pick-up teria, algum dia na sua vida, feito algo semelhante?


Yaracylda Coimet
Recife, 23/10/14

DON JUANITO. Nuestro Juan se fue Pero su amor se quedó En nuestros corazones....¡Duerme, duerme Juanito Que tu madre te está esperando, Juanito!

DON  JUANITO
 
A Borjita



 
Nuestro Juan se fue
Pero su amor se quedó
En nuestros  corazones

¡Feliz suerte Juanito!

Aunque  lejos, estamos cerca de ti
Contigo llevaste tus sueños
Sin que nadie lo sepa
Querías resguardarnos
Y para sosegar nuestros corazones
No hablaste del  tuyo

Estabas lleno de amor
Más especialmente amaste a las mujeres
Y entre otras a las madres
Tenías por ellas una gran admiración
Y venerabas a la tuya
Ahora estaréis juntos Tú y Ella

Me dijiste un día
Que una madre es más fuerte
Que todos los hombres
Pues, pueden ser pequeñas y frágiles
Pero tienen siempre la fuerza
Para cuidar de sus niños y para que
Todos los hombres sean
Un día sostenidos por una mujer

¡Eres seductor Juanito!
¿Cómo no?
Te dieron el nombre del mayor
Coquetón de todos los tiempos
Pero no lo hiciste por mal
No tienes la culpa puesto que viviste tu nombre
No fuiste malo como el Don Juan
Fuiste un eterno enamorado
Todavía sufrías mucho con las separaciones
¡Ojalá no quieras coquetear con las vírgenes del cielo¡

Fuiste un amigo leal
Muy buen padre
Y no te faltarán ángeles
Para acogerte
Canto como Mercedes Sosa:
¡Duerme, duerme Juanito
Que tu madre te está esperando, Juanito!

Yaracylda Coimet
Recife, 18/05/2015

MARIA ANTOINETTE À BEIRA DO NAUFRÁGIO. No passado o belo paquebot se enferrujando Em barca furada foi se tornando E a Rainha luxuosa afundou sem nem pensar....

MARIE ANTOINETTE À BEIRA DO NAUFRÁGIO

Aos que têm ouvidos para ouvir e olhos para ver e juízo para entender





A barca virou, tornou a virar
Foi por causa da Maria que não soube navegar...
E lá no vale do crescente verde
Outrora tão promissor
Se instalaram mais cigarras alienadas
Que formigas antenadas
Paulatinamente bombardeado
O crescente verde está minado
A mercê do estopim
A tripulação temendo o naufrágio e o fim
Às glórias do passado agarrada
Mesmo por tantas sirenes avisada
Pelo peso de seu glamour que a condenou
O presente se lhe escapou
No passado o belo paquebot se enferrujando
Em barca furada foi se tornando
E a Rainha luxuosa afundou sem nem pensar
Se ela fosse simples como um peixinho e aprendesse a nadar
Tiraria a francofonia das ondas revoltas do mar


Yaracylda Coimet
Recife 25-11-2017

MERGULHO VIRTUAL.Do afastamento social ao mergulho intenso no aconchego virtual, só havia um pulo a ser dado. Mergulhamos de cabeça!

MERGULHO VIRTUAL

Salvemos  o tempo de escrever e de  falar



A amiga Heloísa Arcoverde, 
admirável professora e literata




Do afastamento social  ao mergulho intenso no aconchego virtual, só havia um pulo a ser dado. Mergulhamos de cabeça!
Quase sempre os poetas têm razão, pois farejam a alma humana, fugindo do mundo dos comuns dos mortais ou transfigurando seu entorno. E Billy Blanco cantou seu Canto Chorado:  “O que dá pra rir, dá pra chorar. Questão só de peso e medida. Problema de hora e lugar. Mas tudo são coisas da vida”. Seus versos soam como valiosas lições na Pandemia. Parece que foi ontem, que tantas vezes brincamos do fazer-de-conta-que-não-dá-para-ver-você, porque não tínhamos, ou não queríamos ter,  tempo. Rapidamente nossos pretextos voavam pelas redes sociais para aterrissar no celular dos parentes e amigos. Porém, a brincadeira virou hora e lugar da verdade: não dá para nos encontrarmos, muito menos nos tocarmos.
Sem abraços e sem beijinhos, consumimos mais do que nunca emojis, memes (qualquer coisa vira meme!), gifs e outros frutos do virtual, porque nossos amigos “precisam” saber que estamos isolados, mas felizes; que pensamos neles, assim como queremos e necessitamos que eles pensem em nós. Por que dizer/escrever isso para nossos afetos? Estamos, agora, acobertados pelo distanciamento social, podemos usar e abusar dos recadinhos virtuais e lançar rapidamente uma frase na telinha, pondo lado a lado uma carinha que verte uma lágrima e outra que sorri até os dentes… Pronto, missão cumprida: “falei com meu amigo”!

São tantas carinhas! Quem sabe o que todas elas querem dizer… ? 

-Ei, bonitinha de olhinhos amendoados e boquinha em meia-lua sem lábios, o que és tu?
-E tu, de boca revirada? Estás zangada, decepcionada, comeu e não gostou?
-Decifra-me ou devoro-te!

Não, não lutamos mais contra os moinhos. Há muito capitulamos. Adotamos todas 
elas. Nem sempre sabemos quem são, mas e daí?
Enfeitiçados. Usamos máscaras do teatro da vida, símbolos da atualidade comunicacional.

Papel, lápis ou caneta. Na falta deles, um teclado cheiinho de letras, números, acentos, sinais e comandos mágicos; e uma telinha ou uma tela maiorzinha. Não é exigir muito! Nenhum emoji, nem nenhum meme vai falar os nossos sentimentos mais profundos, mas expressam rapidamente o “urgente” e o “emergencial”. O superficial?  Coisas da evolução dos tempos. Será? 

-Até que ponto subsistirá o esgotamento da imagem em detrimento da escrita e da fala? 
Estamos sendo roubados da nossa faculdade comunicacional diferencial, a língua, a fala. Mas, nem nos damos conta disso. E queremos nos dar conta disso? Eis a questão! Porque o mundo tem pressa, mesmo confinado o mundo tem pressa. Escrever custa! Escrever cansa! Escrever dói???!!!

Tão apressados? Mandemos áudios. A voz amiga é uma carícia sonora. Ela transmite rapidinho o que queremos dizer e, de brinde, ainda veicula a emoção da nossa voz. Mas cuidado, não mandemos áudios quando estamos zangados, vão doer no coração do outro. Depois vai dar trabalho para “arrumar a casa”.

Escrever pode escancarar nossos males. Então: Eu me preservo/ Tu te preservas/ Ele, ela se preserva. Eu emojio/ Tu emojias/ Ele, ela emojia. Eu me invado? Tu te invades? Ele, ela se invade?. Mas amemos de peito aberto, ARRISQUEMOS NOSSO TEMPO. Empenhemos nossos olhos, nossas mãos, nosso coração. Essa é mais do que nunca a hora de viver com pureza, clareza e sinceridade os sentimentos, são eles que nos sustentam e nos dão e darão forças para enfrentar o que ainda virá. AMEMOS!

-Cadê você Saussure, que não nos responde?

E, como saindo de seu túmulo, o mestre suíço,  sussurra às nossas orelhas: “Ah! a linguagem verbal, articulada, único código capaz de se autodescrever e se explicar, como também pode fazer com os outros códigos, inclusive com os frutos da linguagem virtual, meus filhinhos.  Bendita seja a linguagem verbal. Oh! metalinguagem! ESCREVAM E FALEM, FILHOS AMADOS”.  

Uma carinha ali, uma carinha aqui, tudo bem. Não sejamos extremistas! De vez em quando, um coração vermelho pulsando, até que faz muito bem, sobretudo, se for nas mensagens matinais, quando muitos ainda estão com o nariz na xícara de café! Dormindo por dentro, como diziam nossas mães. Mas, por Deus, escrevam, falem! Os dedos até podem ser economizados, basta ditar o que queremos escrever  ou dizer, falando com aqueles bichinhos retangulares em cristal líquido. Os corretores automáticos vão trabalhar ou atrapalhar, corrigindo ou talvez modificando um pouco nossos escritos. Não faz mal, porque o mais importante é que nas suas telas, nossos amigos e parentes vão saber que o  nosso tempo foi dedicado a eles. E se não entenderem, nos perguntarão. É mais uma chance de comunicação.

Abençoadas sejam as línguas naturais, e que não se percam os frutos do seu ventre, língua e fala. Amém! 
Yaracylda Coimet
Recife, 10/07/2020

O FILHO DO TAMARINDEIRO. A moça, apreensiva, pensa como seria a consulta com o tal médico tão famoso. Na sala de espera....

O FILHO DO TAMARINDEIRO


Para minha magrela Marina  
Com muito amor de sua Tatá



   

     A moça, apreensiva, pensa como seria a consulta com o tal médico tão famoso. Na sala de espera, as conversas abafadas chegam à meia voz a seus ouvidos. De algumas cadeiras vêm afirmações sussurradas. Ele é mesmo muito bom. É o tampa! Mas quase não fala. Continuam os comentários. Souberam que o homem só pensa em pesquisar, estudar muito e cuidar da saúde de seus pacientes. Sendo assim, pensa a mãe da moça, menos mal, porque ninguém veio para bate-papos. Todos querem cuidados médicos eficientes.


    A tia, tentando quebrar o gelo, entra no consultório com as duas. Nossa Senhora! Não é que o homem é mesmo amarelo acinzentado! Cor de compêndio médico, daqueles que são raridades, que nunca saem das bibliotecas especializadas. Seria difícil fazer aquele azedinho dar um sorriso ou ser afável para com elas. Que fazer? Tamarindo é assim mesmo agre e doce. Com suas virtudes medicinais ele cura, mas irrita a língua; faz a gente se espremer em caretas. Desde a Ásia antiga, é renomado remédio natural. Percorreu o mundo inteiro e se instalou em nossas ruas e quintais. E ali está um deles, sentado bem à sua frente. Corajosa, a tia estende a mão àquela estrela nacional da medicina. Ele nem se quer se mexe no seu assento, menos ainda lhe toca a mão. Quem sabe, nem percebeu seu gesto. A mensagem no recinto é clara: só o paciente e um acompanhante serão recebidos. Há apenas duas cadeiras defronte a mesa do médico. Para bom entendedor, meias palavras bastam. Ela não ficaria ali e teria que fazê-lo compreender sua decisão rapidamente. Não tem a intenção de tumultuar a consulta da celebridade, tinha vindo apenas para cumprimenta-lo. Isso teria que ficar claro.
 

     -“Doutor, faço questão de dizer como chegamos até o senhor. Temos um grande amigo distante, que é como se fosse de nossa família. Ele, que também é médico e pesquisador, me disse que só ficaria tranquilo quando minha sobrinha estivesse sob seus cuidados, que é uma sumidade no assunto. Saiba que o senhor tem um colega e grande admirador à distância”.


     Tudo isso é verdade. Ela está ali porque confia no conselho dado por seu amigo. O médico venerado dá uma piscadela, um sorrisinho de soslaio. Mexe-se na cadeira.


    -“Sendo assim, muito obrigado. Fico muito honrado!”.
     -“Vou deixar mãe e filha a sós com o senhor. Vim apenas para acompanhá-las e conhecê-lo”.

    O gelo está quebrado. Missão cumprida. O tamarindo sorriu! 


Yaracylda Coimet  
Recife, 17/10/14

OS LOBISOMENS CURANDEIROS. Eles saem em noite de Lua cheia. São misteriosos. Fazem vítimas.

OS LOBISOMENS CURANDEIROS

A todos pesquisadores idealistas



Eles saem em noite de Lua cheia. São misteriosos. Fazem vítimas. Primeiro, amedrontam-nas com seus uivos estarrecedores; depois, mostram-lhes os dentes afiados. A mordida fatal! Aí, as vítimas já eram... Só quem já viu um lobisomem, e conseguiu escapar, é que sabe contar como ele é. Nunca vi um, graças a Deus! Mas eles estão de volta.
A plantação mergulhada na penumbra. Ele avança com seus grandes pés. Um brilho metálico em uma das mãos. Parece ser corcunda. Adentra-se no roçado sorrateiramente. Na uiva. Mãos amplas, braços cabeludos. Olhos brilhantes agitados, por entre os matos, reluzindo no dourado dos cubius maduros. A boca, de repente, se abre em dentes brancos. Seu contentamento é evidente. O que poderia ter aguçado assim seu prazer? Nenhuma Yara encantada em linda loura há por ali. Muito menos formosa Guaraná, com cabeleira cor-de-jabuticaba, chorando noivo perdido. Não, nenhuma delas está nas paragens; moça formosa também não. Jacy, de longe, ilumina as folhagens, desvelando o assombrado, que continua a avançar, agora com passos rápidos. Mas o danado não fala, não uiva. Seria um lobisomem mudo?
Plantados há cinco meses, os pés de cubiu já estavam grandinhos, medido quase dois metros. O curandeiro corre às roças antes das sete da manhã, quer servir-lhes o desjejum, para que suas flores não murchem e caiam por terra. Ele estará bem próximo quando as damas despertarem e se mostrarem em seus lindos trajes juvenis. Maravilhado, está decidido a ficar ali, pois sabe que à tardinha as formosuras se recolherão. Voltará com certeza à noite, estará bem cansado, mas pouco importa. Quer ficar por perto. Em breve, ele não as terá novamente para si. Em dois dias fanarão para sempre.
À luz dos olhos de Jacy, largas folhas espalmadas fazem sombra sobre aqueles pesões. O grandalhão se curva com dificuldade, pega os frutos pesados. Os olhos reluzentes parecem ainda mais animados. Continua se adentrando no roçado. Tem que ser rápido. Nenhum som sai de suas mandíbulas. Será mesmo um lobisomem? Nem se quer uiva. Se não é lobisomem, por que tanto mistério? De repente, um corte certeiro no pedúnculo, o galho do arbusto balança. O fruto some. Desde quando lobisomem gosta de cubiu? Mais galhos vão balançando, e mais cubius se despregando. Desse jeito, não sobraria nenhum fruto. Os pajés, na manhã seguinte, não gostariam nada quando soubessem do estrago causado pelo misterioso...
Índios e caboclos andam assustados com essas aparições noturnas. Algo tem que ser feito. Sobram-lhes apenas poucos cubius. O que vão dizer quando os curandeiros lhes pedirem cubius para fazer as poções mágicas que salvam o povo da aldeia. E aquele médico, que quer pesquisar cubiu, não vai ter nenhum pra remédio. O jeito é ir ver o pajé. E a pajelança começa. Cheiro de fumaça no ar, sons de maracás e apitos. De um lado, a ala das mulheres índias; do outro, a dos homens. Todos dançavam arrastando os pés para os lados. Todo mundo em transe. O pajé, sentado, dá baforadas no cachimbo. Haja baforadas! Mais cantos. O pajé evoca os espíritos da floresta. E nada! “O lobisomem não apareceu para Oxóssi”, murmura o velho índio.
Os nativos se revoltam. Ninguém pode desafiar pai Oxóssi, caçador e senhor das matas. Todos iriam caçar o lobisomem. Pois que assim fosse, iam se adentrar na noite, poriam armadilhas de covas cobertas com galhos e folhas; o bicho cairia numa delas. Depois, haveriam de matá-lo com facão, tacape ou flecha.
No início - explica o médico pesquisador a seus colegas, em congresso científico-, é preciso voltar ao roçado a cada dez dias, para colher os frutos, medi-los e pesá-los. Vários testes laboratoriais seriam necessários a fim de lhes determinar a cor, o teor medicinal e tantos detalhes outros, em prol de suas pesquisas, visando à saúde dos diabéticos. É pura devoção, quase sacerdócio, o empenho daquele médico e professor.
A colheita está no ponto ideal. Os frutos têm a coloração amarela esperada. Manualmente, com tesoura de podar, ele os colheria à noitinha. Não usaria carrinho de mão, é pesado, faz barulho, pode acordar o pessoal. Entre as fileiras das plantas se deslocaria com cautela, com um caçuá às costas, no qual acomodaria delicadamente os frutos, para protegê-los no transporte e lhes preservar a qualidade. Sabe que, dentro de três meses, só poderá colhê-los a cada quinze dias. E do quarto mês de produção em diante, só de 20 em 20 dias. Daí sua pressa e seu empenho. Não dava para simplesmente aguardar tanta burocracia e diligências. Se algum fungo se desenvolvesse nos pedúnculos? Em menos de três dias os frutos mudariam de aspecto e qualidade. Não, ele não iria esperar de braços cruzados. Tempo, maior inimigo do pesquisador, quando se trata de trâmites. Seu grande aliado, porém, em experimentos e observação. Ele sabe que a pressa é inimiga da perfeição e que a ciência carece de paciência para avançar a passos seguros. Mas no seu caso, o tempo é mesmo inimigo fatal.
 Todo mundo de tocaia. Céu sem estrelas. O luar a iluminar. Ar abafado. Cheiro úmido de terra. Noite silenciosa. Não há vento. Folhas não se mexem. Ele vem se adentrando no roçado. De repente, um grito!
–“Pronto, ele caiu na toca da armadilha.” De facão, flecha e tacape à mão, caboclos e índios saem de trás dos pés de milho e mandioca, que ladeiam as plantações de cubiu.
-“Bota logo fogo na tocha, quero vê a cara do mardito”.
-“Cuidado. O bicho pode pulá. Vou já é furá a goela dele”.
Correm para a beira da cova e tomam um susto.
-Cadê o lobisome, sumiu?
De dentro do buraco vem um gemido:
-“Por favor, me socorram, me tirem daqui. Sou eu. Não tem lobisomem nenhum”.
-“Rápido! É o doutô-curandeiro que tá ali dentro acocorado”.
O pessoal percebe que ele tem algum metal à mão, pensam se tratar de uma faca ou um canivete.
-“Eita! O doutô também veio pegá o lobisome e caiu no buraco”.
Envergonhado, todo arranhado e dolorido, com os cubius amassados dentro do caçuá, o médico quase chora; mais pelo estrago dos frutos do que pela dor. Então, explica que não tem lobisomem, que ele só veio colher cubiu para suas pesquisas.
Gargalhadas de índios e caboclos, pacientes do médico, ressoam no roçado.
 -“Mai doutô, era só pedi pra gente e que a gente dava os cubiu pro sinhô fazer sua curandeirice”.
Aquele povo inocente não sabe que, por causa do jeito que colhem e acomodam os cubius - que usam como alimento, tempero, remédio caseiro ou mesmo para pintar cabelo, com as folhas-, os frutos não servem para os experimentos do médico. Vendo que não conseguem entender por que ele se arrisca tanto - “fazendo que nem lobisomem, só pra pegar os frutinhos” que eles lhe dariam de bom grado -, o médico senta-se entre as fileiras da plantação e, à luz da Lua, vira professor. Dá uma aula a seus pacientes, explica-lhes por que age daquela maneira. Conquista-os. Torna-os seus aliados.
E foi assim que eles voltaram. Até hoje, em noite de luar, lá se vão os novos lobisomens roça adentro, colhendo cubius.

Yaracylda Coimet
Recife, 20/10/14


O CALDEIRÃO DA LAGARTIXA. A mesa posta, todo mundo feliz tomando a sopa com pão francês. Nino me olhava do outro lado da mesa. Tomou um prato cheio e ainda repetiu. Eu, com o maior nojo do mundo....

O CALDEIRÃO DA LAGARTIXA 


Para Nino, com todo carinho









Muita gente já esperava para comer daquela sopa. Se a memória não falha, quatorze pessoas. Havia crianças pequenas com fome. As filhas da vizinha tinham o hábito de vir tomar a sopa, além de almoçarem conosco vez em quando. Algumas manhãs, elas chegavam cedinho, de chupeta na boca, para ficar com a madrinha, nossa mãe. Nesse dia, mamãe havia saído com papai e, fato raríssimo, só chegaria depois do jantar. Para onde teriam ido, não lembro. Certo é que não foram ao médico, pois devia ser final de semana ou feriado. Todos nós estávamos em casa, inclusive eu, que estudava à noite e que, normalmente, não estaria ali àquela hora.

Mas, voltemos ao sopão. Mamãe me pedira para fazer a sopa do jantar. Chamei Nino, nosso quase vizinho e meio-irmão, para me ajudar. Ele não morava nem na mesma rua. Mas isso pouco importava, sua casa ficava na rua de trás da nossa. Havia poucas ruas e poucas casas no nosso bairro. Logo, todo mundo era vizinho. E Nino dava plantão lá em casa desde pequeno. De quase vizinho a quase irmão, ele hoje é cunhado. Lá estávamos, Nino e eu, mexendo aquela grande sopa, quando, de repente cai uma lagartixa das ripas do telhado (o teto não era lajeado) dentro do enorme caldeirão. A sopa fervendo. A lagartixa morreu no ato ou já caiu porque estava meio morta? Só sei que se debateu um pouco. De início, um espanto: “socorro, e agora, Nino?”. Depois, ficamos nos olhando alguns segundos, como cúmplices prestes a cometer um grande crime.

O que poderíamos fazer? A sopa já pronta, bem cheirosa, quentinha... Um trabalho danado para lavar e cortar as verduras bem pequenininhas, passar a carne no moedor manual, catar o feijão, lavar o arroz antes de pôr na sopa, temperar e mexer para não deixar pegar no fundo do caldeirão e nem queimar. Uma super sopa, com tudo que tinha direito! Os meninos iriam adorar!  Não, não dava para simplesmente jogar a sopa fora. Nem teríamos tempo para fazer outra. Vivíamos no tempo em que as famílias não usavam sopas instantâneas e que as donas-de-casa tinham prazer em fazer suas sopas e, de modo geral, tinham tempo para cozinhar para a família. Jogar a sopa fora ou jogar a lagartixa?
-Rápido, Cidinha, pega a concha e tira essa lagartixa, antes que ela afunde de vez! 
-Ai meu Deus, tira tu Nino!
-Vai tu Cidinha!

Mil risadas abafadas, para o pessoal não desconfiar de nada.
Bom, peguei a concha e a lagartixa já era, foi para o fundo do lixo. Mas o pior momento estava para vir: nós também teríamos que tomar da sopa, senão poderiam achar que ela não estava boa.

-Eu não tomo dessa sopa não, Nino.
-Toma sim, sua miserável, ou o pessoal vai desconfiar.
Haja risadas! E ainda hoje esse episódio me faz muito rir. E continuavam as conjecturas sobre tomar ou não a sopa.
-Eu não preciso tomar a sopa, Nino. Todo mundo sabe que eu não gosto de sopa de feijão.
-Mas hoje você vai ter que tomar, pra todo mundo achar que ela tá muito boa. Toma, senão eu conto!
-Seu gordo duma figa! 
-Deixa de tua besteira. Lá no interior, a gente cortava o rabo da lagartixa e passava na verruga para ela murchar e cair. Ninguém nunca morreu por isso. 
Mais risadas sorrateiras.

A mesa posta, todo mundo feliz tomando a sopa com pão francês. Nino me olhava do outro lado da mesa. Tomou um prato cheio e ainda repetiu. Eu, com o maior nojo do mundo, não só por conta da lagartixa, mas, sobretudo, porque era sopa de feijão. Soprei o prato para esfriar a sopa, fiquei enrolando um pouco e tomei umas colherzinhas. Com uma desculpa qualquer, levantei-me e saí da mesa. Afinal, eu estava no papel de dona-de-casa e tinha o “dever” e o direito de ficar indo-e-vindo sobre pretexto de atender à meninada. Até hoje não gosto de sopa de feijão. 

Desse episódio, pode-se tirar uma lição: nunca peçam para dois adolescentes de dezesseis anos fazer um sopão daqueles, para tantos irmãos e agregados da família. Vai que cai um bicho dentro da sopa?

Yaracylda Coimet
Recife, 27/10/2014

CALDO-DE-CANA. MOENDO IDEIAS & ESCOANDO TEXTOS. Ideias, letras passadas na moenda, escoadas em curtos textos...




Pequena Moenda de Cana-de-Açúcar (1835)
Jean-Baptiste Debret





CALDO-DE-CANA
MOENDO IDEIAS & ESCOANDO TEXTOS




Ideias, letras passadas na moenda, escoadas em curtos textos... Uma jangada atrevida, obedecendo ao desejo daquela que a conduz, singra com sua frágil ponta de grafite o plácido lago de celulose. 
Lápis -companheiro fiel- sabe que todo esse ímpeto resvalará na tela de cristal líquido, onde ele, tão imprescindível à sua mestra, não aparecerá. E as folhinhas de celulose, que por respeito à natureza são rabiscadas frente e verso, em letras miudinhas, também desaparecerão no moderno artefato. Vistos, vividos ou imaginados, os fatos são transfigurados. O reflexo suplanta a imagem e se torna real, materializado nas letras. 
Passou pelos olhos da moenda, ou triscou sua memória, vira texto! Puros sucos de imaginação transbordante, a minha cana verdinha, servidos a internautas curiosos. Não têm contraindicação, não adoçam nem engordam. Podem ser consumidos sem moderação. Mas, por favor, sejam generosos, ponham filtros de indulgência em seus olhos. Às vezes, na rapidez da moagem, caem impurezas da cana no caldo, pois o coador da moenda, sem perceber, pode deixar passar esses resíduos nocivos à nossa língua.

Lembro que um bom pernambucano, criado em engenhos, certo dia me disse: “Caldo de cana é bom mesmo é com pão doce”. Caros leitores, o pão doce é com vocês.

Yaracylda Coimet
Recife, 22/10/14