OS LOBISOMENS CURANDEIROS
A todos pesquisadores idealistas
Eles saem em noite de Lua cheia. São misteriosos. Fazem vítimas. Primeiro, amedrontam-nas com seus uivos estarrecedores; depois, mostram-lhes os dentes afiados. A mordida fatal! Aí, as vítimas já eram... Só quem já viu um lobisomem, e conseguiu escapar, é que sabe contar como ele é. Nunca vi um, graças a Deus! Mas eles estão de volta.
A plantação mergulhada na penumbra. Ele avança com seus grandes pés. Um brilho metálico em uma das mãos. Parece ser corcunda. Adentra-se no roçado sorrateiramente. Na uiva. Mãos amplas, braços cabeludos. Olhos brilhantes agitados, por entre os matos, reluzindo no dourado dos cubius maduros. A boca, de repente, se abre em dentes brancos. Seu contentamento é evidente. O que poderia ter aguçado assim seu prazer? Nenhuma Yara encantada em linda loura há por ali. Muito menos formosa Guaraná, com cabeleira cor-de-jabuticaba, chorando noivo perdido. Não, nenhuma delas está nas paragens; moça formosa também não. Jacy, de longe, ilumina as folhagens, desvelando o assombrado, que continua a avançar, agora com passos rápidos. Mas o danado não fala, não uiva. Seria um lobisomem mudo?
Plantados há cinco meses, os pés de cubiu já estavam grandinhos, medido quase dois metros. O curandeiro corre às roças antes das sete da manhã, quer servir-lhes o desjejum, para que suas flores não murchem e caiam por terra. Ele estará bem próximo quando as damas despertarem e se mostrarem em seus lindos trajes juvenis. Maravilhado, está decidido a ficar ali, pois sabe que à tardinha as formosuras se recolherão. Voltará com certeza à noite, estará bem cansado, mas pouco importa. Quer ficar por perto. Em breve, ele não as terá novamente para si. Em dois dias fanarão para sempre.
À luz dos olhos de Jacy, largas folhas espalmadas fazem sombra sobre aqueles pesões. O grandalhão se curva com dificuldade, pega os frutos pesados. Os olhos reluzentes parecem ainda mais animados. Continua se adentrando no roçado. Tem que ser rápido. Nenhum som sai de suas mandíbulas. Será mesmo um lobisomem? Nem se quer uiva. Se não é lobisomem, por que tanto mistério? De repente, um corte certeiro no pedúnculo, o galho do arbusto balança. O fruto some. Desde quando lobisomem gosta de cubiu? Mais galhos vão balançando, e mais cubius se despregando. Desse jeito, não sobraria nenhum fruto. Os pajés, na manhã seguinte, não gostariam nada quando soubessem do estrago causado pelo misterioso...
Índios e caboclos andam assustados com essas aparições noturnas. Algo tem que ser feito. Sobram-lhes apenas poucos cubius. O que vão dizer quando os curandeiros lhes pedirem cubius para fazer as poções mágicas que salvam o povo da aldeia. E aquele médico, que quer pesquisar cubiu, não vai ter nenhum pra remédio. O jeito é ir ver o pajé. E a pajelança começa. Cheiro de fumaça no ar, sons de maracás e apitos. De um lado, a ala das mulheres índias; do outro, a dos homens. Todos dançavam arrastando os pés para os lados. Todo mundo em transe. O pajé, sentado, dá baforadas no cachimbo. Haja baforadas! Mais cantos. O pajé evoca os espíritos da floresta. E nada! “O lobisomem não apareceu para Oxóssi”, murmura o velho índio.
Os nativos se revoltam. Ninguém pode desafiar pai Oxóssi, caçador e senhor das matas. Todos iriam caçar o lobisomem. Pois que assim fosse, iam se adentrar na noite, poriam armadilhas de covas cobertas com galhos e folhas; o bicho cairia numa delas. Depois, haveriam de matá-lo com facão, tacape ou flecha.
No início - explica o médico pesquisador a seus colegas, em congresso científico-, é preciso voltar ao roçado a cada dez dias, para colher os frutos, medi-los e pesá-los. Vários testes laboratoriais seriam necessários a fim de lhes determinar a cor, o teor medicinal e tantos detalhes outros, em prol de suas pesquisas, visando à saúde dos diabéticos. É pura devoção, quase sacerdócio, o empenho daquele médico e professor.
A colheita está no ponto ideal. Os frutos têm a coloração amarela esperada. Manualmente, com tesoura de podar, ele os colheria à noitinha. Não usaria carrinho de mão, é pesado, faz barulho, pode acordar o pessoal. Entre as fileiras das plantas se deslocaria com cautela, com um caçuá às costas, no qual acomodaria delicadamente os frutos, para protegê-los no transporte e lhes preservar a qualidade. Sabe que, dentro de três meses, só poderá colhê-los a cada quinze dias. E do quarto mês de produção em diante, só de 20 em 20 dias. Daí sua pressa e seu empenho. Não dava para simplesmente aguardar tanta burocracia e diligências. Se algum fungo se desenvolvesse nos pedúnculos? Em menos de três dias os frutos mudariam de aspecto e qualidade. Não, ele não iria esperar de braços cruzados. Tempo, maior inimigo do pesquisador, quando se trata de trâmites. Seu grande aliado, porém, em experimentos e observação. Ele sabe que a pressa é inimiga da perfeição e que a ciência carece de paciência para avançar a passos seguros. Mas no seu caso, o tempo é mesmo inimigo fatal.
Todo mundo de tocaia. Céu sem estrelas. O luar a iluminar. Ar abafado. Cheiro úmido de terra. Noite silenciosa. Não há vento. Folhas não se mexem. Ele vem se adentrando no roçado. De repente, um grito!
–“Pronto, ele caiu na toca da armadilha.” De facão, flecha e tacape à mão, caboclos e índios saem de trás dos pés de milho e mandioca, que ladeiam as plantações de cubiu.
-“Bota logo fogo na tocha, quero vê a cara do mardito”.
-“Cuidado. O bicho pode pulá. Vou já é furá a goela dele”.
Correm para a beira da cova e tomam um susto.
-Cadê o lobisome, sumiu?
De dentro do buraco vem um gemido:
-“Por favor, me socorram, me tirem daqui. Sou eu. Não tem lobisomem nenhum”.
-“Rápido! É o doutô-curandeiro que tá ali dentro acocorado”.
O pessoal percebe que ele tem algum metal à mão, pensam se tratar de uma faca ou um canivete.
-“Eita! O doutô também veio pegá o lobisome e caiu no buraco”.
Envergonhado, todo arranhado e dolorido, com os cubius amassados dentro do caçuá, o médico quase chora; mais pelo estrago dos frutos do que pela dor. Então, explica que não tem lobisomem, que ele só veio colher cubiu para suas pesquisas.
Gargalhadas de índios e caboclos, pacientes do médico, ressoam no roçado.
-“Mai doutô, era só pedi pra gente e que a gente dava os cubiu pro sinhô fazer sua curandeirice”.
Aquele povo inocente não sabe que, por causa do jeito que colhem e acomodam os cubius - que usam como alimento, tempero, remédio caseiro ou mesmo para pintar cabelo, com as folhas-, os frutos não servem para os experimentos do médico. Vendo que não conseguem entender por que ele se arrisca tanto - “fazendo que nem lobisomem, só pra pegar os frutinhos” que eles lhe dariam de bom grado -, o médico senta-se entre as fileiras da plantação e, à luz da Lua, vira professor. Dá uma aula a seus pacientes, explica-lhes por que age daquela maneira. Conquista-os. Torna-os seus aliados.
E foi assim que eles voltaram. Até hoje, em noite de luar, lá se vão os novos lobisomens roça adentro, colhendo cubius.
Yaracylda Coimet
Recife, 20/10/14





