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O FILHO DO TAMARINDEIRO. A moça, apreensiva, pensa como seria a consulta com o tal médico tão famoso. Na sala de espera....

O FILHO DO TAMARINDEIRO


Para minha magrela Marina  
Com muito amor de sua Tatá



   

     A moça, apreensiva, pensa como seria a consulta com o tal médico tão famoso. Na sala de espera, as conversas abafadas chegam à meia voz a seus ouvidos. De algumas cadeiras vêm afirmações sussurradas. Ele é mesmo muito bom. É o tampa! Mas quase não fala. Continuam os comentários. Souberam que o homem só pensa em pesquisar, estudar muito e cuidar da saúde de seus pacientes. Sendo assim, pensa a mãe da moça, menos mal, porque ninguém veio para bate-papos. Todos querem cuidados médicos eficientes.


    A tia, tentando quebrar o gelo, entra no consultório com as duas. Nossa Senhora! Não é que o homem é mesmo amarelo acinzentado! Cor de compêndio médico, daqueles que são raridades, que nunca saem das bibliotecas especializadas. Seria difícil fazer aquele azedinho dar um sorriso ou ser afável para com elas. Que fazer? Tamarindo é assim mesmo agre e doce. Com suas virtudes medicinais ele cura, mas irrita a língua; faz a gente se espremer em caretas. Desde a Ásia antiga, é renomado remédio natural. Percorreu o mundo inteiro e se instalou em nossas ruas e quintais. E ali está um deles, sentado bem à sua frente. Corajosa, a tia estende a mão àquela estrela nacional da medicina. Ele nem se quer se mexe no seu assento, menos ainda lhe toca a mão. Quem sabe, nem percebeu seu gesto. A mensagem no recinto é clara: só o paciente e um acompanhante serão recebidos. Há apenas duas cadeiras defronte a mesa do médico. Para bom entendedor, meias palavras bastam. Ela não ficaria ali e teria que fazê-lo compreender sua decisão rapidamente. Não tem a intenção de tumultuar a consulta da celebridade, tinha vindo apenas para cumprimenta-lo. Isso teria que ficar claro.
 

     -“Doutor, faço questão de dizer como chegamos até o senhor. Temos um grande amigo distante, que é como se fosse de nossa família. Ele, que também é médico e pesquisador, me disse que só ficaria tranquilo quando minha sobrinha estivesse sob seus cuidados, que é uma sumidade no assunto. Saiba que o senhor tem um colega e grande admirador à distância”.


     Tudo isso é verdade. Ela está ali porque confia no conselho dado por seu amigo. O médico venerado dá uma piscadela, um sorrisinho de soslaio. Mexe-se na cadeira.


    -“Sendo assim, muito obrigado. Fico muito honrado!”.
     -“Vou deixar mãe e filha a sós com o senhor. Vim apenas para acompanhá-las e conhecê-lo”.

    O gelo está quebrado. Missão cumprida. O tamarindo sorriu! 


Yaracylda Coimet  
Recife, 17/10/14

O CALDEIRÃO DA LAGARTIXA. A mesa posta, todo mundo feliz tomando a sopa com pão francês. Nino me olhava do outro lado da mesa. Tomou um prato cheio e ainda repetiu. Eu, com o maior nojo do mundo....

O CALDEIRÃO DA LAGARTIXA 


Para Nino, com todo carinho









Muita gente já esperava para comer daquela sopa. Se a memória não falha, quatorze pessoas. Havia crianças pequenas com fome. As filhas da vizinha tinham o hábito de vir tomar a sopa, além de almoçarem conosco vez em quando. Algumas manhãs, elas chegavam cedinho, de chupeta na boca, para ficar com a madrinha, nossa mãe. Nesse dia, mamãe havia saído com papai e, fato raríssimo, só chegaria depois do jantar. Para onde teriam ido, não lembro. Certo é que não foram ao médico, pois devia ser final de semana ou feriado. Todos nós estávamos em casa, inclusive eu, que estudava à noite e que, normalmente, não estaria ali àquela hora.

Mas, voltemos ao sopão. Mamãe me pedira para fazer a sopa do jantar. Chamei Nino, nosso quase vizinho e meio-irmão, para me ajudar. Ele não morava nem na mesma rua. Mas isso pouco importava, sua casa ficava na rua de trás da nossa. Havia poucas ruas e poucas casas no nosso bairro. Logo, todo mundo era vizinho. E Nino dava plantão lá em casa desde pequeno. De quase vizinho a quase irmão, ele hoje é cunhado. Lá estávamos, Nino e eu, mexendo aquela grande sopa, quando, de repente cai uma lagartixa das ripas do telhado (o teto não era lajeado) dentro do enorme caldeirão. A sopa fervendo. A lagartixa morreu no ato ou já caiu porque estava meio morta? Só sei que se debateu um pouco. De início, um espanto: “socorro, e agora, Nino?”. Depois, ficamos nos olhando alguns segundos, como cúmplices prestes a cometer um grande crime.

O que poderíamos fazer? A sopa já pronta, bem cheirosa, quentinha... Um trabalho danado para lavar e cortar as verduras bem pequenininhas, passar a carne no moedor manual, catar o feijão, lavar o arroz antes de pôr na sopa, temperar e mexer para não deixar pegar no fundo do caldeirão e nem queimar. Uma super sopa, com tudo que tinha direito! Os meninos iriam adorar!  Não, não dava para simplesmente jogar a sopa fora. Nem teríamos tempo para fazer outra. Vivíamos no tempo em que as famílias não usavam sopas instantâneas e que as donas-de-casa tinham prazer em fazer suas sopas e, de modo geral, tinham tempo para cozinhar para a família. Jogar a sopa fora ou jogar a lagartixa?
-Rápido, Cidinha, pega a concha e tira essa lagartixa, antes que ela afunde de vez! 
-Ai meu Deus, tira tu Nino!
-Vai tu Cidinha!

Mil risadas abafadas, para o pessoal não desconfiar de nada.
Bom, peguei a concha e a lagartixa já era, foi para o fundo do lixo. Mas o pior momento estava para vir: nós também teríamos que tomar da sopa, senão poderiam achar que ela não estava boa.

-Eu não tomo dessa sopa não, Nino.
-Toma sim, sua miserável, ou o pessoal vai desconfiar.
Haja risadas! E ainda hoje esse episódio me faz muito rir. E continuavam as conjecturas sobre tomar ou não a sopa.
-Eu não preciso tomar a sopa, Nino. Todo mundo sabe que eu não gosto de sopa de feijão.
-Mas hoje você vai ter que tomar, pra todo mundo achar que ela tá muito boa. Toma, senão eu conto!
-Seu gordo duma figa! 
-Deixa de tua besteira. Lá no interior, a gente cortava o rabo da lagartixa e passava na verruga para ela murchar e cair. Ninguém nunca morreu por isso. 
Mais risadas sorrateiras.

A mesa posta, todo mundo feliz tomando a sopa com pão francês. Nino me olhava do outro lado da mesa. Tomou um prato cheio e ainda repetiu. Eu, com o maior nojo do mundo, não só por conta da lagartixa, mas, sobretudo, porque era sopa de feijão. Soprei o prato para esfriar a sopa, fiquei enrolando um pouco e tomei umas colherzinhas. Com uma desculpa qualquer, levantei-me e saí da mesa. Afinal, eu estava no papel de dona-de-casa e tinha o “dever” e o direito de ficar indo-e-vindo sobre pretexto de atender à meninada. Até hoje não gosto de sopa de feijão. 

Desse episódio, pode-se tirar uma lição: nunca peçam para dois adolescentes de dezesseis anos fazer um sopão daqueles, para tantos irmãos e agregados da família. Vai que cai um bicho dentro da sopa?

Yaracylda Coimet
Recife, 27/10/2014